Mulher no mundo árabe… e agora?

por Débora Aziz


Ao pousar no aeroporto, pela primeira vez no mundo árabe, senti um novo cheiro, o cheiro da casa nova. Uma curiosidade imensa me invadiu, pensando em como seria tudo lá. Me lembrava do desenho animado Alladin e queria saber se era “tipo aquilo”.

Mas não, não era a mesma coisa! Era parecido, em alguns aspectos: casas e prédios da mesma cor de areia, lembrando o deserto. Hoje em dia, a modernidade se conecta com a cultura, mas há regiões que continuam desérticas, lindas, e para mim tornou-se impossível não amar ir ao deserto e dormir na tenda dos beduínos!

Mas o cheiro ainda não me era familiar… não era ruim, mas era forte. A caminho do aeroporto para a nova casa, cansada e curiosa, acabei dormindo um pouco. Era madrugada e a confusão do fuso horário nos fez acordar na tarde do dia seguinte! Graças a Deus, tinham levado comida para nós e a casa já estava mobiliada. Conhecemos pessoas receptivas, muito simpáticas. Sabendo que você é estrangeiro, são mais ainda. O difícil é quando você não fala nem o inglês e nem o árabe, eles não têm paciência alguma!

Mas o difícil mesmo foi deixar uma cultura em que eu sempre sorria e era simpática com todos, e agora sei que se sorrio na rua sou considerada fácil, apenas porque sou mulher. As mulheres não podem rir e muito menos dar gargalhada. Já os homens têm liberdade para fazerem o que quiser.

Também não podemos ficar olhando fixamente um homem, senão ele pode pensar que você quer casar com ele. Se sorrir então, já era!

Contudo, a sensação de viver em uma cultura tão diferente, onde as mulheres usam véu e se maquiam lindamente, é interessante. Nem todas as mulheres vestem o véu, somente as muçulmanas, que são a maioria. As cristãs não precisam, e aqui elas fazem questão de se distinguir. Se você é cristã e usa véu, para que o usa? Não precisa! Elas mesmas falam isso. Claro que em outros países do Oriente Médio e no interior de nosso país, mesmo as cristãs têm que usar o hijab ou o nikab.

Na academia, homens ficam de um lado e mulheres do outro. No lado das mulheres, elas podem tirar o véu e vestir roupa normal de academia. Mas no final, todas têm que colocar o véu e se vestir adequadamente antes se sair. Roupa de manga comprida, calça jeans normal e sapato. Nada à mostra! Ou então usar a famosa “baia” (que seria o vestido delas) preta ou de várias cores, para as mais modernas. Usar o nikab (lenço preto que só mostra os olhos) e a baia (vestido) toda preta faz parte do costume das famílias mais tradicionais. Ou só o rijab (lenço normal) para as mais modernas. Se elas gostam?! Pode-se dizer que estão acostumadas, então sim.

Os homens não te cumprimentam e nem olham na sua cara, na maioria das vezes. Principalmente quando você está com o seu marido. Eles só vão olhar para ele e cumprimentar a ele! Você não é nada e nem parece estar ali!

Na farmácia, um homem me atendeu e não estava entendendo bem o que eu dizia, porque ele não falava quase nada de inglês. Ele foi extremamente grosso e ríspido e entendi que ele queria a carteira do convênio. Fui no carro pegar, mas fui chorando.

Com o passar do tempo, percebo minha identidade como cristã, mulher e missionária. Apesar da desvalorização da mulher no contexto árabe, viver centrada nos propósitos de Cristo me proporciona outra perspectiva. Enquanto meu marido e os outros obreiros conversam diretamente com os homens nas visitas pastorais, por exemplo, sei que sempre há uma ou mais mulheres, fora daquela roda de conversa, que também precisam ser ministradas, precisam de atenção. E assim, Deus me proporciona momentos maravilhosos ao lado delas.

Os dias são rápidos e intensos aqui. Aquele cheiro já não sinto mais, e a casa já é tão nossa que parece que vivemos ali há muitos anos. 

Difícil não me acostumar e não gostar, mesmo sob uma ótica culturalmente rígida. Isso porque, além da convicção em Cristo, a receptividade das pessoas é tão grande, servindo o cafezinho com sabor de cardamone feito com a borra do café e docinhos árabes. Comida árabe? Convite é o que não falta! Gastamos assim horas e dias em tempo de qualidade. E é assim que se conquista a amizade e a confiança, tomando o cafezinho de cada dia nas casas, algo tão importante e íntimo para esta cultura, e que, para nós, abre portas para a propagação do Evangelho.

Débora Aziz é esposa de Homero e tem dois filhos. É missionária no Oriente Médio desde 2014, coordenando diversos projetos de desenvolvimento comunitário com cristãos árabes, em especial refugiados.

Texto originalmente publicado em http://nexusbrasil.org/mulher-no-mundo-arabe-e-agora/

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